Manifesto Pegacionista

 

Depois da fragmentação do sujeito só sobraram os corpos. O sujeito tem de ruir para aparecer o corpo.


(deontologia)


Regra número um do pegacionismo: na dúvida, pegue.

Regra número dois do pegacionismo: pegue, mas não se apegue.

Corolário da regra número dois - sem compromisso.

Regra número três do pegacionismo: Mais vale pegar que tropegar.


(descrição)


O pegacionismo é uma teoria inclusiva, quem tiver dando mole, vamos incluindo.


O pegacionismo é um movimento com conteúdo.


O pegacionismo é leveza com pegada.


O pegacionismo é um fato consumado.


O pegacionismo é a melhor, e mais gostosa, resposta para o ceticismo.

(Conferir supra a regra número um, segundo a qual “na dúvida, pegue”.)


O pegacionismo é formador: desde a infância brincamos de pega-pega.


O pegacionismo é pragmático, se pegou, tá valendo.


O pegacionismo é mais profundo que ele mesmo.



(bricolage literário)


O pegacionismo nasceu com o Brasil.

O amor veio antes da ordem e do progresso.


“Quando o batel chegou à boca do rio, já ali estavam dezoito ou vinte homens. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse as suas vergonhas. Traziam nas mãos arcos e setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel.” Pero Vaz de Caminha

 

“Se pica-flor me chamais,

Pica-flor aceito ser,

Mas resta agora saber,

se no nome, que me dais,

meteis a flor, que guardais

no passarinho melhor!

se me dais este favor,

sendo só de mim o pica,

e o mais vosso, claro fica,

que fico então pica-flor.”

Gregório de Matos


As almas se batem, mas os corpos, os corpos se compreendem

“Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.

A alma é que estraga o amor.

(...)

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.”(A arte de amar, Bandeira)


“A pele é o que há de mais profundo” (Paul Valéry)


“Quanto mais poético, mais verdadeiro.

[E quanto mais gostoso, mais poético.]” Novalis, inserção nossa


“O homem provavelmente não passa de uma espécie de fenda na ordem das coisas.” (Michel Foucault, “As palavras e as coisas”)


Na dinâmica pegacionista, a boate é o lugar de trabalho de minhas frases: fraseio; “é o corpo olhado, e não mais o corpo escutado, que toma uma função fática (de contato), mantendo, entre a produção de minha linguagem e o desejo flutuante de que se nutre essa produção, uma relação de vigília, não de mensagem. A boate é, em suma, o lugar neutro: é a utopia do terceiro termo, a deriva para longe do par demasiadamente puro: falar/calar-se”. (Roland Barthes)


Como a Antropofagia, o pegacionismo só pode ter ligações estratégicas com Freud. Subscrevemos a reforma terminológica realizada pelo antropófago: “o maior dos absurdos é por exemplo chamar de inconsciente a parte mais iluminada pela consciência do homem: o sexo e o estômago. Eu chamo a isso de “consciente antropofágico”” (Oswald de Andrade, Retificação de Freud, in: “Os Dentes do Dragão”).


(bricolage filosófico)


“Não penso, logo pego.” Descartes

variante “Pego, logo existo” idem

“Pegacionistas do mundo, uni-vos!” Marx

“A pegada atual é a melhor das pegadas possíveis num universo de infinita contingência.” Leibniz

“Sobre o que não se pode falar, deve-se pegar.” Wittgenstein

E, para o Estagirita, deus é pegacionista: move o mundo sem se mover, como o amado move o amante.


O pegacionismo se diz de muitas formas.


1. Teologia pegacionista:

Pelo baixo-ventre, alça-se os céus.


2. Fenomenologia do tempo pegacionista:

I. Peguei.

II. Estou pegando.

III. Vou pegar.


3. Epistemologia pegacionista:

Sensualismo francês.


4. Teleologia pegacionista:

A causa final é como um amante que move sem ser movido.


5. Política pegacionista:

A terceira via é a mais gostosa.




O pegacionismo não é um relativismo. Mas por que deixar de dar umas reladinhas também no relativismo? Ele pode não ser a melhor fundamentação do conhecimento, mas certamente é a mais (com sotaque carioca) goxxxtosa. Uma espécie  de último tango em paris, ou melhor, o último carimbó em Belém, já tramado pelos penetras do (último do império) baile da ilha fiscal.


o pegacionismo é a metafísica alemã e o empirismo britânico levados e elevados à selva. Nada que o sensualismo francês não tenha feito acompanhado de um bom tinto. Os  milhares de milhões de chineses(as) são a prova cabal do pegacionismo. Daí sua universalidade, ou melhor, sua pegabilidade.


Todos sabem que quem não tem lugar à mesa certamente no cardápio está. O pegacionismo, agora assentado, não retirou sua carne do cardápio. Queremos ser devorados ... curvar a tradição (como “la prière d'insérer” do livro do Bataille) (*dar uns amassos na tradição - daí o princípio “pegue mas não se apegue”)


Sem o baixo ventre os humanos alçariam os céus.

Não existe ninguém sem o baixo ventre

Logo,

Todos somos pegacionistas.


O pegacionismo é o axé que faltava ao kama sutra, a pilantragem ausente (jamais alcançada, apenas sonhada, e não confessada, por aquele insípido macarrão de hospital chamado jurgen werther) ao jovem Werther e, porsupuesto, aquela apalpadinha (caliente) safada (mão boba ontológica) na leveza do ser. Não por acaso as últimas palavras de um(a) eminente pegacionista foram: (com voz rouca, aveludada) “saibam que minha vida foi.... uma delícia!!!”



A essência do pegacionismo é a transitoriedade: os critérios são provisórios, as certezas efêmeras.


Há comunismo e há o comenismo.


(sensualinguística e teoria erótico-literária)


Pegar, verbo bitransitivo.


O corpo leva ao misticismo ou o misticismo leva ao corpo?


Na poesia arcaica, a palavra manifestava a ordem cósmica; hoje a palavra consubstancia o cosmo, a palavra se fez ato.


Antes, a linguagem servia para mostrar as fissuras da alma. No pegacionismo, revela as dos corpos. Com efeito, o pegacionismo se preocupa muito com a língua, que muito além da linguagem, revela o corpo.


Há poetas que voltam-se para o passado. Outros, para o presente. O poeta pegacionista volta-se para o futuro, próximo e palpável.


Hoje, na literatura, todo mundo está tentando se enfiar no entrelugar.

Pé cá, pé lá.

ou melhor pecado, pelado.


Em síntese, a vida é fluxo, ou pelo menos deveria ser.

E o vazio imaginário, cada um preenche como bem quiser.


A estética se destila na mesa do boteco.


(física da pegada)


Segundo a dialética do atrito, no contexto pegacionista, a disputa é uma distensão temporária que levará os corpos a se aproximarem ainda mais.


Sob o ruído das cidades, os corpos não se escutam – o que se propõe é o passeio, não a interlocução.


De fundamentação safada, a perspectiva pegacionista representa uma virada gostosa …



(vox populi)

Bem diz a sabedoria popular:

Caiu na rede, é peixe.

Na noite, todos os gatos são pardos.

Aquilo que sabe bem ou é pecado ou faz mal.

Mãos frias, coração quente.

A noite é boa conselheira (mais que boa, ótima!).



(pegacionismo cósmico)


O pegacionismo implica o mordecionismo; pegar sem morder não é pegar.


Vivam os antropófagos, que nos ensinaram a devorar o outro, ou melhor, seu corpo!


Viva a brasilidade que deu ao mundo o cosmopolitismo antropofágico!


o manifesto pegacionista é de um cosmopolitismo enraizado. Situado no espaço e tempo, uai: aqui, agora, o que rolar.



N. B. O pegacionismo não é irrefutável, mas é irresistível.


h.linea@yahoo.com